Um bom lugar para começar é de onde você está. (Arthur Bloch)
Que misérias são as que vemos e ouvimos, que já não nos tocam como deveriam, banalizadas na informação como produto de consumo e não de reflexão, transformando-nos em espectadores, passivos, de nada mais do que um filme ruim?
As misérias do mundo estão aí, e só há dois modos de reagir diante delas: ou entender que não se tem a culpa e, portanto, encolher os ombros e dizer que não está nas suas mãos remediá-lo — e isto é certo —, ou, melhor, assumir que, ainda quando não está nas nossas mãos resolvê-lo, devemos comportar-nos como se assim fosse. ("Responsabilidade", J. Saramago)
O que andamos aqui a fazer, senão com os mesmos olhares de ontem, de antes de ontem, do ano passado?
Acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta vida são dois dias, quem vier atrás que feche a porta – mas se não nos decidirmos a olhar o mundo gravemente, com olhos severos e avaliadores, o mais certo é termos apenas um dia para viver, o mais certo é deixarmos a porta aberta para um vazio infinito de morte, escuridão e malogro. ("Cada vez mais sós", J. Saramago)
Que esforço de educação, nós, pais, exemplos maiores do que a melhor e mais renomada escola, estamos fazendo perante nossas ingênuas crianças, asfixiadas por uma sociedade que valoriza a superficialidade?
Resulta muito mais fácil educar os povos para a guerra do que para a paz. Para educar no espírito bélico basta apelar aos mais baixos instintos. Educar para a paz implica ensinar a reconhecer o outro, a escutar os seus argumentos, a entender as suas limitações, a negociar com ele, a chegar a acordos. ("Educar para a paz", Israel vive às custas do Holocausto, J. Saramago)
Que queremos das pessoas? A frágil segurança de sua superficialidade, que nos empaca, ou o turbilhão de sentimentos de sua essência, que nos assusta, mas nos move adiante?
Nós estamos a assistir ao que chamaria de morte do cidadão e, no seu lugar, o que temos, e cada vez mais, é o cliente. Agora já ninguém te pergunta o que pensas, agora perguntam-te que marca de carro, de roupa, de gravata tens, quanto ganhas… ("Cidadãos, não clientes", J. Saramago)
Almejamos o céu, paraíso das almas, cercados na terra de muitos que nos dizem saber como lá chegar, mas nos lembramos de que é aqui que estamos acompanhados e que nenhuma viagem é boa quando se faz sozinho?
Aceitemos então que estamos sozinhos e, a partir daí, façamos a nova descoberta de que estamos acompanhados – uns pelos outros. Quando pusermos os olhos no céu estrelado, com a furiosa vontade de lá chegar, mesmo que seja para encontrar o que não é para nós, mesmo que tenhamos de resignar-nos à humilde certeza de que, em muitos casos, uma vida não bastará para fazer a viagem – quando pusermos os olhos no céu, repito, não esqueçamos que os pés assentam na terra e que é sobre esta terra que o destino do homem (esse nó misterioso que queremos desatar) tem de cumprir-se. Por uma simples questão de humanidade. ("Questão de Humanidade", Deste Mundo e do Outro, J. Saramago)
Aceitamos, resignados, que nossos desejos pelo intangível não foram e não serão satisfeitos? Que essa busca é a essência do nosso ser, que nos move, e que não poderá ser finalizada ao risco de inexistirmos e que, por isso, não podem nossas frustrações ser justificativas para nossa violência?
O homem é um ser que procura. O que caracteriza o ser humano é a necessidade de procurar e procurar por distintos caminhos, que podem ser contraditórios. Não sabemos se encontramos e não sabemos se o que encontrámos é alguma vez o que estávamos procurando, ou se não há mais o que procurar depois de haver encontrado algo. Portanto, somos seres de procura. ("Procurar", A escrita como uma tomada de consciência, J. Saramago)
Fizemos os esforços, diante das divergências, a todo custo, de buscar o diálogo? E que este, uma vez esgotado, cedeu lugar ao silêncio, que por sua vez, exaurido, deu uma última chance à indiferença, antes de sucumbirmos à violência física ou verbal? Demos espaço à reflexão para vencer nossa intransigência?
Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma. ("Pensar, pensar", J. Saramago).
"Respostas" de um ateu.
São mais nobres e generosos nossos pensamentos fraternos, suportados na crença de um Ser superior, severo e amoroso, que nos ensina o que é certo e errado, ou daqueles que os têm forjado na observação do mundo, baseados apenas no fato de sermos humanos e que isso basta para nos respeitarmos?
Caleo´s quote of this day:
Trocaria, se pudesse, toda minha tecnologia por uma tarde com Sócrates. (Steve Jobs)